Em números absolutos, foram registrados 584 suicídios de crianças no país durante o período analisado pelo pesquisador.

Deste total, 55 casos foram de crianças indígenas, com um predomínio de suicídio de meninas (58,2%). Entre os não indígenas, que somaram 529 casos, a maioria eram meninos (60%).

Situação dramática

O grupo de pesquisas da qual Ponte faz parte também analisou recentemente dados de suicídio indígena na região de Tabatinga, no estado do Amazonas.

O trabalho mostrou aglomerados de casos onde os estudiosos observaram que  parte das pessoas que cometeram suicídio eram parentes entre si.

O pesquisador explica que o número de suicídios infantil indígena é maior nas crianças que têm histórico de ocorrências na família. A maior parte dos suicídios infantis registrados aconteceram nos mesmos locais onde foram registradas a maior parte dos casos de adultos.

— Um  outro grupo de trabalho também mostrou que as crianças estudadas eram as que mais frequentemente tinham parentes que cometeram suicídio. Estar em um meio onde as pessoas percebam o suicídio como um caminho aumenta a chance de as crianças cometerem esse ato — explica.

Outro dado apontado por Ponte neste novo artigo é que 3/4 dos casos ocorreram em 17 municípios, agrupáveis em três núcleos: um no sudoeste do Amazonas, com 27,3% dos casos; outro em área no noroeste do mesmo estado, com 9,1% dos casos; e um terceiro no sul do Mato Grosso do Sul, com 40% dos registros. O pesquisador atenta ainda para o fato de esta última região ser um local conhecido pelas altas taxas de mortalidade por suicídio de indígenas, principalmente dos guarani-kaiowá.

— As altas taxas de mortalidade por suicídio de crianças indígenas não são um fenômeno descolado das igualmente altas taxas de mortalidade por suicídio de indígenas de um modo geral — afirma o pesquisador — Isso está ligado ao quadro precário de subsistência dos índios. A situação dos guarani-kaiowá é, talvez, uma das mais dramáticas entre os índios brasileiros  — diz.

Os guarani-kaiowá  vivem em comunidades muito pequenas, muitas vezes em áreas não demarcadas, em acampamentos na beira da estrada.

—  As condições de vida deles são ameaçadas pelas doenças, a indefinição em relação às suas terras e pela pressão do agronegócio. Todos esses fatores os colocam em uma situação de grande vulnerabilidade social, que se relaciona de algum modo com o suicídio em altas proporções — diz Ponte.

O antropólogo e professor da Universidade Federal de Roraima (UFRR)Tonico Benites é uma das principais lideranças do povo guarani-kaiowá no Mato Grosso do Sul e coautor da minissérie documental com 13 episódios “O Mistério de Nhemyrõ”, que trata do suicídio de indígenas de diversos povos no Brasil. Para ele, os fatores sociais, políticos e ambientais são os propulsores das altas taxas de suicídio entre os povos indígenas, inclusive de crianças.

— Esses casos acontecem em um contexto de perda de terra, remoção forçada, aplicação de uma regra rígida militar, desmatamento, proibição de circulação indígena e ameaças. É nesse cenário que os casos de suicídios indígenas acontecem: o momento em que a pessoa entra em um estado de medo, desespero, e que, sem muita expectativa de viver melhor, não vê outra saída.

Dados do Ministério da Saúde referentes ao período entre 2010 e 2017 mostram que a taxa de mortalidade por suicídio de indígenas é quase três vezes maior que a da população em geral — 15,2/100 mil, contra 5,5/100 mil, respectivamente. Para reverter o quadro, Ponte defende uma parceria entre a ciência, o poder público e os povos indígenas.

— É muito importante buscar compreender o que os próprios indígenas afetados por esse problema imaginam que possa ser feito. As estratégias de enfrentamento devem ser construídas com os indígenas. Não adianta a gente pensar dentro dos gabinetes as alternativas — diz.